Ser ou não ser

Quem acompanha o Balaio de Estilos deve saber que a minha mãe faz parte de uma oficina literária do Sinpro, Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro. Se você não sabia, dá uma olhadinha neste post aqui.

Depois de ser acometida pelo writer’s block, síndrome de bloqueio mental muito comum em pessoas que vivem da escrita, ela voltou com força total.

No texto abaixo, Elza imagina um diálogo fantástico entre o poeta inglês William Shakespeare e o nosso eterno poetinha Vinícius de Moraes.

Espero que gostem!

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Ser

Ser ou não ser, eis a questão. (William Shekespeare in Hamlet – séc. XII)

O homem que diz sou não é porque quem é mesmo é, não sou. (Vinícius de Moraes in Canto de Ossanha – séc. XX)

Em algum lugar no espaço da eternidade, acontece um encontro entre Shakespeare e Vinícius de Moraes.

_ Olá, Sir Moraes!

_ Olá, Sr. Shakespeare!

_ Que bom encontrá-lo! Muito me honra que tenha aceitado meu convite.

_ Fiquei surpreso e, mais que tudo, curioso. Afinal, qual o porquê do convite? Como soube da minha existência?

_ Permita-me, Sir. Não só sabia há algum tempo de sua existência, como estava ansioso para conhecê-lo pessoalmente. Sei até sobre algumas de suas preferências, por isso reservei esse bar para nosso encontro e já providenciei o seu scotch.

_ Vamos lá, Shakespeare, deixa disso! Afinal onde estamos agora não cabe mais tanta cerimônia, não é mesmo? Assim sendo, vou adorar que você me passe meu u-is-qui-nho. (E após um gole) Bem, agora mate minha curiosidade. Por que o convite?

_ Nem imagina? Depois de oito séculos, você acrescentou mais um problema à questão que eu coloquei em Hamlet. Desde o século XII filósofos, cineastas, professores, artistas e cientistas gastaram suas inteligências tentando interpretar aquela frase. De lá prá cá ela tem sido repetida por milhões de pessoas. E eu, ainda lá e também aqui me divertia com as interpretações e discursos que fazem na Terra para explicá-la. Livros, obras escritas e editadas em função de explicar aquela frase, aquela ideia que eu lancei. E aí você vem, coloca uma outra questão em cima e atrapalha tudo. Pôxa! Você confundiu ainda mais a minha questão!

_ Peraí, Shakes! Aquela ideia era originalmente sua mesmo? Sim, porque até onde eu sei, e é o que se diz na Terra, tudo o que você escreveu alguém já tinha dito antes. Não se ofenda, mas vem daí a minha dúvida.

_ Bem, amigo, deixemos essa questão de lado- pula essa; o importante é que foi pela boca do personagem da minha peça que essa frase foi dita e a grande questão foi levantada. Mas você conseguiu tirar todos os pingos dos is, confundiu geral.

_ Eu? Será?

_ É, rapaz; pode crer. Ei, garçom! Traga mais um uísque para o meu amigo aqui para clarear-lhe as ideias. Acho que sem o uísque o cérebro dele não entende direito as coisas.

_O quê, por exemplo?

_ Como lhe disse, durante 8 séculos as pessoas se perguntavam: sou ou não sou? queimavam a mufa entre o ser e o não ser. Aí você vem e coloca mais um componente: se eu digo eu sou, na verdade não sou; só sou se o outro disser: ele é. E daí?E então, veja se eu entendi: eu não posso dizer que eu sou Shakespeare. Se eu disser, eu não sou mais eu; se você disser: eu sou Vinicius de Moraes, você não é. Só com minha afirmação você é.

… Vou chamar o garçom: agora quem está precisando de mais um uísque sou eu!

_ Cara! Você agora me deixou mais chapado do que o uísque. Nunca pensei que um dia eu ia precisar de você, de seu testemunho para eu existir. Que loucura!

_ Pois é… viu a confusão em que você nos meteu?

_ Só eu? Você começou primeiro, com aquela história de ser ou não ser… Olha amigo, vamos combinar uma coisa para nos tirar dessas situações – da minha e da sua. Reformulamos as ideias; assim respondemos às questões que nós mesmos inventamos, simplificamos tudo e ainda por cima receberemos gratidão eterna lá na Terra. Que tal?

_ Então fica assim: ser ou não ser não é a questão; a questão é que o homem que diz sou às vezes é , porque quem ele é mesmo,é, eu é que não sou.

_ Taí: gostei. Agora poderemos tomar nosso uisquinho em paz por toda a eternidade. Ei, garçom camarada! Traga mais dois, e é só prá começar.

Elza Cléa
(Outubro/2014)

 

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