Qual o problema do nosso pasto? Na coluna literária, a escritora Elza Cléa identifica quem é quem no rebanho.

O rebanho
Elza Cléa 

Pasto grande e verdejante compartilhado pelo rebanho. Parece uma só espécie: os caprinos.

Mas não se iluda – cuidado moço! Parecem iguais, mas não são não. Há discretos subgrupos: irmãos e primos eles são, mas há algumas diferenças e violentos enfrentamentos. Repare só:

Aqueles lá pastam com a cabeça baixa a relva que recobre o chão. A cabeça baixa é um perigo, no enfrentamento aos predadores externos e também aos primos bodes. Estes são os carneiros.

Veja que aqueles outros colocam-se em posição de bípede, para alcançar os galhos das árvores e se alimentar de suas folhas. São os cabritos. Outros há, do mesmo subgrupo, que escalam a árvore, vê lá? Alcançam galhos mais altos em busca de folhas mais tenras. Esses são os espertinhos.

As fêmeas desse subgrupo são plácidas e serenas. Vê suas longas e ovaladas tetas? Fornecem o leite muito nutritivo; é a genitora da prole. Com grande habilidade materna perpetua a espécie. São as cabras. Não têm muita sorte com seus machos: enquanto são leais e têm todas as virtudes descritas, seus machos, os bodes, são estúpidos, brigões, traiçoeiros, desordeiros…. Elas os temem; submissas, permanecem serenas em suas casas. De uns tempos para cá, porém, um grande número delas está berrando mais alto falam e agem como bodes. Algumas até tem chifres e os enfrentam, usando-os como armas.

Olha, lá estão as ovelhas! Vê em seu corpo a lã que doam para outras espécies? Doam também o leite de suas tetas. São dóceis e leais, trazendo calor e tranquilidade para todo o grupo. Formam com os carneiros famílias pacíficas, confortáveis. Seus companheiros são igualmente dóceis, com forte comportamento grupal, solidários, doadores…

Ah, se todos fossem iguais a eles, o pasto seria um exemplo de paz e civilidade, de ordem e progresso. Mas infelizmente a paz do pasto é quebrada pelos desordeiros. É fácil percebê-los. Repare só: são aqueles que possuem chifres e barbas. São marcados na aparência, o que facilita a identificação. Não é necessário instalar câmera para isso. Possuem uma longa barba, que lhes confere uma aparência bem distinta dos seus primos carneiros e das cabras.  Os chifres (que lhes servem de elemento de defesa), atendem a seu forte instinto de sobrevivência, sua capacidade de luta e enfrentamento. Essa característica, no entanto, tem o seu reverso. Por ser um animal resistente, e também teimoso, ousado, atrevido, usa as armas a seu favor, afrontando todas as espécies da fazenda, inclusive a sua própria. Está sempre insatisfeito e é traiçoeiro com seus pares. 

Esses são avessos ao convívio pacífico. Vivem soltos e invadem todos os espaços porque, muito astutos e rebeldes, sempre encontram uma brecha por mais bem fincadas que estejam as cercas. Passam pelas brechas, saltam as barreiras, correm, saltam nos terrenos mais íngremes. Os pastores não fazem nenhum esforço para alcançá-los: tá tudo dominado. Os desordeiros são sempre mais ágeis e poderosos.

Com esses há que ter cautela. Na lida com os bodes existe a necessidade de cuidado, por que são muito ativos e destruidores. Não se importam com o tamanho dos danos que venham a causar. Se não forem impedidos, transgridem, arrastam e destroem o que veem pelo caminho.

Parece fácil de identificar, não é? Mas não é tão simples quanto parece.Há momentos que vemos ovelhas e cabras agindo como Bodes. E o pior é que há bodes que agem como ovelhas, falando com mansidão, fazendo promessas e demonstrando uma submissão tão profunda, que não deixa qualquer rastro de desconfiança.

E é aí que mora o problema do pasto.

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