O guarda-roupa como oráculo Continuando com os conceitos do yoga no cotidiano, o tema hoje é “sem excesso”.

Inicio essa prática de ter apenas o necessário, pelo guarda-roupa. Antes de jogarem uma pedra online, peço que tenham calma e deem-me uma chance. Vou lhes explicar o motivo de iniciar esse texto e o lema do dia com esse aparato.

Durante décadas morei num condomínio do tipo “american way of life”. Casas no mesmo estilo do subúrbio americano dos filmes. Nas reuniões que ia havia sempre um grupo de mulheres todas encasacadas. Olhavam para mim, a novata, dos pés a cabeça e sempre diziam a mesma coisa: você ainda não tem botas? Aos poucos percebia as mesmas mulheres em todas essas reuniões, sempre à parte de seus maridos e filhos. Conversavam de tudo e sempre sobre liquidações de botas.

Sempre preferi sandálias leves ou sapatos de montanhismo. Evidente que elas não tinham o contexto sexy do qual as tais comentavam. E cada uma com as suas botas sempre de modelos novos. Aos poucos deixei de frequentar essas festas. Nunca senti falta alguma delas.

Mudei de profissão mas continuei morando no mesmo lugar, e com a devidDeusaa distância pude refletir sobre quem eram aquelas mulheres, ou melhor, quem elas não eram. Me deparei um dia com uma leitura que me abriu os olhos da alma: A Deusa Interior (Jennifer Barker Woolger, Cultrix, 2010). Essa leitura, virou livro de cabeceira; com ela pude enxergar que no meio daquele feminino, daquelas reuniões, havia equívoco e vazio.

O primeiro se dava porque as mulheres não ficam mais ou menos sexys por causa das botas. No imaginário feminino a deidade que usa botas é Ártemis. Não se encontra uma mulher artemisiana no meio de tanta conversa furada. Com tanto papo jogado fora, sem objetivo ou desafio. Nada que ela use em si é para lhe gerar sensualidade excessiva. Não há necessidade disso. Não é preciso excesso algum. As botas que usa lhe servem para deixá-la mais ágil, mais livre para todos os caminhos ultrapassados. Não há vazios nessa imagem do feminino.

O fato de ter demorado a comprar as benditas botas é porque buscava por uma que se parecesse comigo, com os meus ideais de vida e não de apresentação. Por isso acabei tendo somente duas: uma de pelo de ovelha para aquecer nos dias mais frios e outra de lona ferrugem, para andar em estradas de terra e poder dirigir. Ambas foram resgatando um lado que havia sido adormecido por mim mesma e pelas obrigações do cotidiano.

É aí que o guarda-roupa entra. Por que ele deve estar cheio de coisas que não são você? As portas dele bem que poderiam servir como oráculo um dia, e lhe perguntar um dia ao abri-lo: “Conhece-se a ti mesmo”? Observando bem verá que ali está cheio, repleto de confusão, caos e medo dentre as várias fases da vida. Ele estará cheio de um preenchimento falso e vazio. Nada do que guarda é você realmente ou pelo menos a maioria dele. Logo a máxima de sem excessos pode muito bem começar por aí, não é?

Messy Closet

Quando o mundo está demais conosco, nos desconhecemos. Não há espaços aqui dentro e isso reflete fora. Tudo se torna demais. Alimentamos a ideia de autoestima como ter; nunca como autoapreciação (falamos disso noutro momento). Se trata de uma autoestima que só te afunda e te distancia. Sou imensamente grata àquelas mulheres que mencionei no início. Por causa delas encontrei-me na minha solidão e aprendi a escolher o que não me excedia. Estou aprendendo sempre. Recuperei a profundidade de minha alma e meus pés se mantiveram quentes e ágeis durante décadas.

Após quinze anos, as botas de pelo de ovelha ainda estão aqui. As outras de estrada se despedaçaram, rasgaram estrada afora. Enterrei-as com honra e agradecimento. Foram minhas fiéis companheiras. Então depois de tudo explicado lhes peço: olhe bem para o seu guarda-roupa. Será que não tem algum vestido que pode virar saia? Será que não tem um monte de coisas que poderiam deixar outras pessoas alegres? E aí dentro de si, no guarda-roupa “interno”, o que tem que pode ser transformado? Ou simplesmente passado para frente?

http://crentechic.com

Sem excessos não é algo que dê medo. É só começar que já chega um outro tipo de contentamento… como vento fresco em dia de tórrido calor: o vento do alívio e de estar leve.


Luana Mia é mãe, historiadora, bailarina, instrutora de Hatha Yoga e budista. Atualmente está escrevendo um livro de bolso sobre gatos, desmistificando os tabus sobre eles. Já passou por várias nuances da vida em que muita vezes foi estigmatizada de “estranhamente rebelde”. Hoje compreende que como ela, há pessoas em que a alma fica gritando: vai pula, você consegue! Enquanto outras buscam amarrar suas pernas. Mas a alma tem pernas maiores e a busca pela compreensão de si a fez ver que rebeldia era uma porta que a levaria para o resto do mundo em si mesma.

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