Duplo Nossa escritora residente capta o balé das mãos interpretando uma poesia musical.

Duplo
-Elza Cléa-

Toccata de Schumann. A melodia toma de assalto o ambiente, o ar que se respira, ouvidos, mentes e corações dos ouvintes.

As mãos sobre o piano – iguais, duplas, complementares. A magia da música as torna totalmente interdependentes. Elas, que se creem tão exclusivas e originais. Uma é esquerda e outra direita; uma, porém, é a outra no reflexo do espelho. Uma toca a melodia, a outra os acordes. Uma dança mais, é mais apresentada. Exibe-se sem modéstia. A mão que toca os acordes tem mais silêncios, podemos apreciá-la mais lenta, vai mais devagar. Juntas, no entanto, deslocam-se dando a impressão de estar em todos os registros ao mesmo tempo.

De repente, num súbito allegro, elas se confundem. Cruzam-se e trocam de funções. Mudaram de lado, já não se sabe mais quem é quem.

Mas para que as distinguir? Maior do que tudo nesse momento é a perfeita cumplicidade. E lá estão as duas mãos. Idênticas na forma; na leveza e na intensidade; na precisão; na comunhão.

Observo-lhes o movimento sobre o piano. Na rapidez dos prestos, prestíssimos, parecem multiplicar-se no ar. São 4, 8…. Deslocam-se quase à velocidade do som. E sincronizam-se. E produzem melodia vibrante. Presto! Transformam-se: ora mãos, ora pássaros, ora nuvens, ora tão etéreas que nem as distinguimos mais.

Prestíssimo! Onde estão? Desapareceram. Parece que se desintegraram.

Presente, apenas o piano. Atuação visível no sobe e desce do preto-e-branco das teclas. É ele, sozinho, quem executa a melodia que permanece no ar? Mistério quase espiritual.

E então, elas reaparecem. Nos adágios e nos moderatos deixam-se ver. Dançam uma dança lenta. Combinam-se expressando lirismos e suavidade.

Uma caminha lenta – seus acordes soam nas semibreves e mínimas; às vezes até numa breve. A outra mão tem mais pressa. Vai ligeira soando nas fusas e semifusas. Há um momento, porém, em quase todos os compassos, em que elas se combinam e tocam as teclas ao mesmo tempo, trazendo um tom uníssono à melodia. Praticam um exercício de desencontros combinados e encontros unissonantes. Harmônicos. Duplas na existência; únicas na execução da Toccata.

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10 comentários em “Duplo Nossa escritora residente capta o balé das mãos interpretando uma poesia musical.

  1. Tamine Maria Elmôr
    20/10/2015 at 22:19

    Magnífico!!! texto belíssimo, música maravilhosa! Minha comadre, ainda terei o prazer e o orgulho, de ver suas crônicas publicadas!

    • Ana Paula Macedo
      21/10/2015 at 07:33

      Obrigada por ter gostado da edição!
      Quem sabe a Elza lança uma coletãnea em breve?
      Bjs

  2. Augusto
    20/10/2015 at 09:12

    Sensacional!

    • Ana Paula Macedo
      20/10/2015 at 09:47

      Obrigada, em nome da Elza!
      Bjs

  3. Nice Maria
    20/10/2015 at 01:01

    Querida Elza, vc está arrasando nos textos!

    • Ana Paula Macedo
      20/10/2015 at 07:59

      Super inspirada, não é, Nice?
      Bjs

  4. Léa Anastassakis
    19/10/2015 at 23:02

    Essa senhora escritora está cada dia melhor. BRAVO!

    • Ana Paula Macedo
      20/10/2015 at 07:58

      Está mesmo! Bjs

  5. Elza Cléa Macedo
    19/10/2015 at 21:02

    Beleza de edição. Muito obrigada.

    • Ana Paula Macedo
      19/10/2015 at 21:02

      A escritora merece!
      Bjs

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